RESENHA POR RENATA JARDINI DO “CÉREBRO NO MUNDO DIGITAL” Os desafios da leitura na nossa era (Maryanne Wolf, 2019).

Ser um bom leitor não é decodificar bem e rápido frases, mas sim atingir o cerne do ato de se ler, ou seja, ir além da sabedoria do autor, para que cada um descubra a sua própria. Ou seja, os livros seriam uma espécie de lente de aumento para que os leitores possam ler o que há no fundo deles mesmos (Proust).

Todo bom leitor deve objetivar plenitude em suas três vidas (Aristóteles): vida do conhecimento, pela perspectiva da neurociência; vida do prazer, pela perspectiva da literatura e vida da contemplação, pela perspectiva do desenvolvimento humano.  

A plasticidade neural nos mostra que neurônios usados de multiplicam, se diversificam, enquanto outros, não usados atrofiam e morrem. Assim, o cérebro muda conforme fatores ambientais, onde a leitura tem papel chave, com o que se lê, como se lê e como se é estimulado para se ler.

Apenas uma letra lida ativa redes inteiras de grupos de células de linguagem, articulatório-motoras, em milissegundos. Todo o cérebro leitor está em ação organizada em que funções como a atenção, memória, produção de hipóteses e tomadas de decisão, de córtex pré-frontal executivo estão muito ativadas.

A atenção em pré-frontal é o ponto central da leitura, e da aprendizagem em si. Como se fosse uma mesa de trabalho cognitiva, iniciando na memória de trabalho, atencional.

No século XXI estamos nos defrontando com duas espécies de leitura: a mais lenta, completa, baseada nas palavras e seus significados, em que o letramento se faz presente, e aquela mais veloz, digital, baseada em varreduras e movimentos em zigue-zague dos olhos na tela.

Quando lemos muito em meio digital a qualidade de nossa atenção se modifica, pois essa leitura favorece a imediatez, a alternância de tarefas realizadas em ritmo fulminante e há interferência contínua da distração, em oposição à manutenção do foco de nossa atenção.  

Nos processos de leitura profunda temos que a sentença significa um modo de pensar. Ela é ao mesmo tempo a oportunidade e o limite do pensamento, aquilo com que temos que pensar, um pensamento passível de ser sentido (Berry).

Enquanto lemos de maneira profunda formamos imagens mentais acuradas, nos transportamos para o contexto lido, criamos empatia leitora, nos colocamos na posição dos personagens e o que está sendo lido, crescemos intelectual e emocionalmente, enquanto possibilidades de ser humano, como se fosse uma forma de aprender a amar. Lemos para sabermos que não estamos sós. Na leitura profunda está presente o uso do córtex motor, que é ativado fazendo-o movimentar-se para assumir o lugar do outro, para imitá-lo, pelo uso de neurônios-espelho ativados.

Se deixarmos de ler de maneira lenta e profunda, em livros, podemos nos perder de nós mesmos, perdermos a paciência cognitiva, de mergulhar no mundo dos “outros”. É receita certa para a ignorância, medo e incompreensão inconscientes, capazes de levar à intolerância, intransigência e radicalismos diversos. Vivenciaremos o declínio do humanismo.

ACESSE O ARTIGO NA INTEGRA AQUI.